Análise semanal

Boavista e o leilão de uma alma

O leilão que vai ao osso

Esta deveria ser uma semana de celebração. Vinte e cinco anos desde que o Boavista fez o impensável e arrancou o troféu da Primeira Liga aos gigantes estabelecidos. Em vez disso, o clube passou a semana a ver um tribunal recusar travar a liquidação da sua SAD e o leilão do seu estádio prosseguir sem piedade (3). O Bessa, o terreno onde Litos e Elpídio Silva se inscreveram no folclore do futebol português, está à venda. O simbolismo é brutal.

A administradora de insolvência pediu a suspensão da venda (1), um recuo processual que oferece um fio de esperança, mas nenhuma certeza. O tribunal já falou uma vez. A máquina da liquidação raramente inverte o rumo em silêncio.

A fúria nas bancadas

Os Panteras Negras não mediram palavras. O grupo de ultras acusou a direção de tentar ativamente "matar" o clube (2). Isto vai além do protesto. É uma massa associativa que assistiu à trajetória de campeões improváveis a casca vazia insolvente e decidiu que quem está no comando já não merece sequer a aparência de confiança. Quando os próprios adeptos enquadram a liderança como agentes de destruição, a rutura é total.

Dois aniversários, duas realidades

O contraste não podia ser mais acentuado. Litos refletiu que o Boavista "precisa de um sheik" (4), uma admissão crua de que apenas uma intervenção financeira transformadora pode reverter a decadência. Elpídio Silva, o avançado campeão, recordou que João Loureiro pagou sem hesitar uma cláusula de título no seu contrato (6). Um homem de palavra, a gerir um clube que cumpria as suas promessas. Esse clube já não existe.

O título, 25 anos depois, continua a ser um dos grandes outliers do futebol europeu (8). O Boavista não venceu apenas um campeonato. Partiu um sistema. Provou que um clube bem gerido fora do eixo do poder podia derrubar toda uma ordem instituída (7). Agora, o clube nem sequer garante que terá o seu estádio no próximo mês.

O que vem a seguir

Os adeptos devem acompanhar o pedido de suspensão da venda feito pela administradora de insolvência (1). É a única coisa entre o Bessa e um novo dono. Para lá disso, o silêncio dos potenciais investidores é ensurdecedor. A liquidação não faz pausas para sentimentalismos ou retrospetivas de aniversário. A questão já não é sobre posição na liga ou contratações de verão. É saber se o Boavista FC, enquanto entidade reconhecível, sobrevive sequer.

Fontes

  • 1. record.pt — <![CDATA[ Administradora de insolvência do Boavista pede suspensão da venda do Bessa ]]>
  • 2. abola.pt — Panteras Negras acusam direção de tentar «matar» o Boavista
  • 3. abola.pt — Leilão do Estádio do Bessa mantém-se: tribunal recusa travar liquidação do Boavista
  • 4. record.pt — <![CDATA[ Litos: «Boavista precisa de um sheik» ]]>
  • 6. abola.pt — Elpídio Silva, goleador do Boavista campeão: «Tinha o título no contrato e João Loureiro pagou!»
  • 7. abola.pt — Boavista: Há 25 anos nasceu o campeão que mudou as cores do poder
  • 8. abola.pt — Os campeões mais improváveis: do Boavista ao Leicester e ao grande Nottingham
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